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Terça, 22 Set 2020
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SOCIEDADE
ARDERAM DUAS D√ČCADAS DE PINHAL
Rádio Cova da Beira
Ainda cheira a fumo. Quase uma semana depois do incêndio de Bogas de Baixo e Janeiro de Cima, ainda se vê o fumo, de vez em quando, por entre as cinzas. O fogo deixou um rasto de terra queimada e o desalento nos produtores que viram os pinhais, com mais de 20 anos, perdidos, outra vez.
Por Paula Brito em 13 de Aug de 2020

“Foi uma tragédia muito grande para a aldeia porque isto é de muitos proprietários que, quando estavam mais em dificuldade, vendiam uma parcela de pinhal e iam resolvendo os seus problemas, isto tinha ardido em 1991, agora que estava a dar o rendimento arde tudo, outra vez!”

 

Ilídio Martins, presidente da União de freguesias de Janeiro de Cima e Bogas de Baixo. Unidas no papel e na tragédia, já que nem a estrada que as separa foi suficiente para travar o fogo que não conhece direita nem esquerda. De um lado e do outro da estrada, o cenário é negro e triste, a prejudicar a envolvente à aldeia de xisto, onde o turismo rural, com 30 quartos, este ano, está “superlotado”.

 

Ilídio Martins garante que as aldeias nunca estiveram em perigo e que o trabalho de prevenção e limpeza estava feito.

 

“Não havia caminhos onde os carros dos bombeiros não circulassem, a faixa dos 100 metros estava limpa, em janeiro de cima não houve casas em perigo, em Bogas esteve mais próximo, mas as casas não estiveram em perigo.”

 

Não houve casas em perigo, mas ardeu 70% da área da freguesia e com ela uma boa parte da economia local e da vontade dos proprietários voltarem a tratar e limpar os pinhais.

 

“Porque, por exemplo, um proprietário vende um pinhal, ao fim de 4 a 5 anos é preciso fazer uma limpeza, gasta mil a dois mil euros e depois passa o lume e leva tudo. As pessoas dizem que já não vale a pena, mas é isso que eu quero dizer, que vale a pena e como diz o ditado, quem de uma escapa, 100 anos dura.”

 

Ernesto Antunes, sócio gerente da firma Reis Antunes e Irmão, uma serração, sediada em Bogas de Cima, que vive da matéria prima da região e que, pese embora não tenha tido prejuízo direto com o fogo, recorda que quando uma árvore arde todos perdem.

 

“Cada hectar que arde é um prejuízo não só para o dono do pinhal mas para todos os que o respiram, cada árvore que arde.”

 

Crítico em relação à forma como o país age perante a calamidade, Ernesto Antunes socorre-se da expressão estão “estamos a matar os peixes todos”, para explicar o que está a acontecer na floresta.

 

“Foram cortadas madeiras verdes que ainda deviam estar no ar, e o nosso Estado devia primeiro obrigar a limpar tudo o que estava ardido, porque alem de ficaram difíceis de trabalhar, estavam a dar trabalho a muita gente e a deixar que o outro produto verde crescesse.”

 

Uma estratégia que está a acabar com a floresta que tem muitos interesses associados. Ilidio Martins não sabe especificar quais, mas sabe que só durante este mês de agosto, já foram vários os sustos apanhados por quem anda sempre com o coração na mão.

 

“Quando a floresta começa a ficar densa, começamos a ficar preocupados, eu não faço ideia, como é que é possível só neste mês de agosto já houve aqui umas 10 ignições de incêndios, mesmo que as temperaturas sejam elevadas os fogos não começam sem nenhuma ignição.”

 

Além da floresta, arderam vários apiários que se encontravam naquelas serras, ricas em urze. A Pinus Verde, a Associação de Desenvolvimento Local com sede em Bogas de Cima, tinha 30 colmeias, perdeu um terço no fogo.

 

“A Pinus tem um apiário na zona onde ocorreu um incêndio, onde tínhamos cerca de 30 colmeias, felizmente, por causa de um projeto que temos, retirámos uma parte que era para ir para Alcobaça e ficaram em Bogas de Cima, com isso conseguimos salvar uma parte do efetivo, das quinze que tínhamos perdemos 10.”

 

Segundo João Mesquita, um dos associados da Pinus Verde, entre colmeias e pinhal, teve um prejuízo de 200 mil euros. “Arderam-lhe 100 colmeias e 60 hectares de pinhal, está desolado”.

 

Américo Dias, também perdeu dois dos seus cinco apiários e teme pelos que restam.

“As colmeias ficaram em cinzas, dois apiários que arderam na totalidade, tinha cinco, fiquei com três. As poucas abelhas que lá estão, estão a morrer, embora as esteja a alimentar, não há flora e não vão resistir. É uma dor de alma!”

 

Em cinzas ficaram também os medronheiros e carvalhos que tinha plantado na envolvente, a pensar no alimento das abelhas, que são essências à sobrevivência da humanidade.

 

“Já Einstein dizia que, sem abelhas ao fim de quatro anos o homem desaparece da face da terra. Cerca de 80% das espécies por nós comestíveis, são polinizadas pelas abelhas.”

 

Este ano a cresta está feita, as perdas oscilam entre os 80 e os 100%. Sem abelhas não há mel, e, a médio prazo, não há vida. 


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