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Terça, 22 Set 2020
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CULTURA
“A GRANDE DEVASSA 1820-1920”
Rádio Cova da Beira
O juiz presidente da comarca de Castelo Branco vai lançar, em outubro, um livro de 23 crónicas, que contam outras tantas estórias, baseadas em processos judiciais com mais de um século. José Avelino decidiu sacudir o pó dos processos, dar vida às personagens e trazer à luz do dia as estórias de um arquivo judicial, esquecido no sótão do tribunal da Covilhã.
Por Paula Brito em 10 de Aug de 2020

É o primeiro livro do juiz, que mora na Beira Baixa há 22 anos e que presidiu, nos últimos sete, à Comarca de Castelo Branco. Movido pela curiosidade de quem já foi jornalista, pelo gosto pela história e memória e pelo incentivo de uma reunião, que incitava à preservação dos objetos históricos da justiça, José Avelino, foi percorrer os sótãos dos tribunais e surpreendeu-se, na Covilhã, com o achado.

 

“Deparei-me lá com um molho de processos, eu até me assustei, já queimados, podres, cheios de pó, sentei-me lá um bocadinho ao pé do molho e logo um dos primeiros processos que li tinha a ver com uma pena de morte.”

 

Foi também durante a pesquisa que descobriu porque motivo estavam aqueles processos no sótão, eram os que tinham sobrevivido a um incêndio que ocorreu no tribunal, como é relatado por um funcionário judicial que andava a ser investigado, devido ao desaparecimento de processos ligados a “gente rica” da região.

 

“A justificação que ele dá para o desaparecimento dos processos é o incêndio, no anterior tribunal, no centro da cidade, e estes são aqueles que escaparam à mortandade do fogo.”

 

Escaparam ao fogo, mas não à pena de José Avelino que, além das questões judiciais, conta o dia a dia de uma região fortemente marcada pela indústria dos lanifícios, que tinha até um tribunal próprio, pelas influentes e ricas famílias, pela influência e poder da igreja e por estórias hilariantes como a do alegado milagre do vinho na fonte das três bicas, que um canteiro de Penamacor construiu na Covilhã, e à volta da qual, naquele dia, o burburinho era grande, ao ponto de se deslocar ao local, o presidente da câmara de então, estávamos em 1889.

 

“Sua Exa, o presidente da câmara, manda arredar toda a gente e vai ver o que se passava, a fonte estava a deitar vinho, em vez de água, quase um milagre! Sua Exa. prova e diz, que o vinho era maravilhoso, embora misturado com água da serra!”

 

A justificação para o alegado milagre está nas traseiras da fonte onde “havia um armazém de vinho, uma pipa rebentou, o vinho misturou-se com as canalizações e, em vez de água, começou a sair vinho.” A ironia do destino, é que o armazém do vinho pertencia um vereador.

 

“As beatas do padre Grainha e a pena de desterro”, é outra crónica que o juiz destaca na entrevista à RCB, que se revelou pequena para falar de todas as hilariantes histórias escondidas pelo pó, no sótão do tribunal da Covilhã, como a desta covilhanense do século XIX.

 

“Uma senhora que tinha uma língua tão interessante que o juiz da Covilhã, só para chatear o colega do Fundão, desterrou-a para aqui durante seis meses. Ela era uma das beatas dos padres Grainha, uma família muito conhecida da Covilhã, aliás, um dos padres Grainha foi camareiro mor do Papa, pessoas muito influentes, e aquela senhora quis atentar contra a vida do padre Grainha, imagine onde é que as coisas chegaram!”

 

De penas de morte a penas de desterro, de milagres a guerras liberais, passando por estórias de amor e de interesses, com subornos à Igreja.  Ingredientes não faltam à estória de “Ana Jorge de Caria e o depósito para casamento”. O processo, de 1835, conta a estória do rico comerciante que, vindo de trás de serra, se encantou por Ana Jorge, de Caria, e pede a mão ao pai com todas as condições, incluindo a virgindade, homologadas pelo juiz.

 

“Escreviam um requerimento ao juiz dizendo que retirassem a filha prometida em casamento da casa onde morava, por causa das más influencias, e que a colocassem numa casa de família indicada pelo tribunal.”

 

José Avelino relata o desentendimento entre o pai e o futuro genro, a forma como tudo se resolveu numa tasca da rua direita da Covilhã, com uns copos, um petisco e uns dinheiros retirados da bolsa do noivo que, ainda teve que pagar ao Bispo da Guarda “um grande pecúlio”.

 

O livro vai ser lançado no dia 3 de Outubro na Lousa, dia do aniversário do jornal Trevim, que é o responsável pela edição, depois segue para Proença a Nova, uma vez que é a autarquia que patrocina a livro, em Dezembro estará na Covilhã e, em janeiro, em Castelo Branco, sempre com uma exposição que abre portas ao lançamento.

 

“Associado a este livro, vou ter à disposição das pessoas, antes do lançamento, uma exposição em que vão estar os processos que deram origem a cada estória e os documentos, e isso é uma mais valia para a história e cultura da nossa região.”

 

Depois do primeiro, o segundo já está a ser escrito, José Avelino já tem, pelo menos, mais sete estórias resgatadas ao pó do sótão do tribunal da Covilhã. 


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