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Terça, 25 Jun 2019
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CULTURA
COVILHÃ HOMENAGEIA MONSENHOR ALVES BRÁS
Rádio Cova da Beira
Tinha como objectivo ser padre por apenas um ano, mas acabou por ser uma das figuras mais marcantes da igreja católica Portuguesa do século XX. Joaquim Alves Brás nasceu na aldeia de Casegas no concelho da Covilhã em 20 de Março de 1899 e faleceu em Lisboa em Março de 1966, vítima de um acidente de viação.
Por Nuno Miguel em 22 de Mar de 2019
Uma personalidade que foi homenageada no salão nobre da câmara da Covilhã, tendo uma das suas sobrinhas, Maria do Céu Brás, recordado o episódio que o levou durante três anos a estar retido numa cama “quando tinha 11 anos andava a ajudar um tio a lavrar uma propriedade num sítio chamado Tapadas que foi acometido por uma violenta dor que o impossibilitou de andar. Foi uma coxalgia que o deixou preso a uma cama durante três anos, tendo sido tratado pela mãe. Recuperou, mas nunca totalmente, porque ficou sempre a coxear e a sofrer desse problema. Chegado aos 18 anos foi bater à porta do seminário do Fundão, onde o seu irmão era professor, perguntando se apesar de ser coxo podia ser padre. Foi aceite e apesar da sua deficiência foi ordenado sacerdote”.    
Apesar da doença, Joaquim Alves Brás acabou por ingressar no seminário do Fundão, foi pároco na freguesia de Donas durante cinco anos e director espiritual do seminário maior da Guarda. Do seu trabalho destaca-se a fundação da obra de Santa Zita e do instituto secular das cooperadoras da família, tendo ainda estado ligado à criação dos centros de cooperação familiar e do movimento “Por Um Lar Cristão”. D. Manuel Felício, bispo da diocese da Guarda, apontou o seu caso como o exemplo de alguém que, apesar das suas dificuldades motoras, nunca baixou os braços perante essa adversidade “podemos dizer que foi um coxo que fez andar muita gente e muitos projectos. Fez andar e abanar uma sociedade, inclusivamente interpelando-a de forma directa no aspecto da educação, da assistência e da previdência. Um homem que desafiou uma sociedade mais do que com palavras. Fê-lo com gestos concretos e abriu clareiras novas”.   
Em 1958, Joaquim Alves Brás foi nomeado camareiro secreto do papa Pio XII, com o título de Monsenhor. Em 1990 que foi entregue no patriarcado de Lisboa o processo da sua beatificação e canonização e já em 2008 o papa Bento XVI atribuiu-lhe o título de venerável durante as comemorações dos 75 anos do instituto das cooperadoras da família. Arnaldo Pinto Cardoso, postulador da causa da canonização, destaca o reconhecimento público agora dado a esta personalidade “a igreja já começou a prestar-lhe essa homenagem em 2008, quando foi declarado venerável pelo papa Bento XVI. A família que ele fundou também lhe tem prestado essa homenagem e por isso é muito importante que uma entidade cívica tenha também tomado essa consciência de que se trata de um homem destas terras que é preciso homenagear e apresentar como exemplo a tanta gente e isso passou a ser concretizado no dia de hoje”.  
Maria Alice da Costa, coordenadora geral do instituto das cooperadoras da família refere que “53 anos após a sua morte, o padre Brás continua vivo na sua obra. Passado o impacto avassalador da perda humana do seu fundador as cooperadoras da família, continuadoras do seu legado, colocaram mãos à obra conscientes de que essa missão que tinham abraçado era tão bela quanto exigente e tinha que continuar. As transformações sociais, económicas, políticas e eclesiais foram muitas mas as cooperadoras não pararam. E a obra do padre Brás foi-se adequando às novas conjunturas e enquadramentos legais”.  
Uma homenagem onde César Craveiro, actual presidente da união de freguesias de Casegas e Ourondo, partilhou também algumas recordações sobre o trabalho do pároco. Muitas delas que ainda hoje persistem na aldeia de Casegas “recordo o homem sempre apressado, a coxear, que percorria as ruas em terra batida de Casegas a visitar os doentes ou a caminho da igreja em cujas obras se envolveu de corpo e alma, colaborando com os padres que as promoveram entre 1933 e 1949. O lambril de azulejo que ainda hoje reveste todo o interior da igreja, da autoria do arquitecto Fernando Barros de Santa Rita, foi em parte custeado pelos fundos recolhidos com a então chamada campanha do ovo, pensada pelo padre Brás, em que aos domingos um grupo de raparigas fazia um peditório de ovos pelas ruas e cujo produto da venda revertia a favor do lambril. A capacidade criadora e empreendedora do padre Brás estava presente em tudo aquilo em que se envolvia e acreditava”.     
Já a vereadora com o pelouro da cultura na câmara municipal da Covilhã, Regina Gouveia, sublinha o papel determinante desempenhado por Joaquim Alves Brás na luta pela igualdade entre homens e mulheres “estamos ainda numa era em que muito precisamos de fazer em prol da igualdade de género e que, de acordo com alguns estudiosos, ainda vai demorar cinco gerações. E ele há tanto tempo que quis defender a mulher que tinha então na sociedade uma função específica mas certamente porque ele também viu a mulher como mais vulnerável naquele tempo em que criou e consolidou obras tão importantes”.

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