RCB/TuneIn
Domingo, 18 Ago 2019
PUB
UBI
CIMD Cabecalho
SOCIEDADE
A PAISAGEM: DE RURAL A CONTRADITÓRIA
Rádio Cova da Beira
Provocador, Álvaro Domingues esteve no Fundão para falar da paisagem e “roubou” o poema a Camões para ilustrar a palestra – todo o mundo é feito de mudança - até a paisagem.
Por Paula Brito em 26 de Feb de 2019

 “A paisagem tem coisas que duram milénios, como as montanhas ou os rios, mas a maior parte da sua pele pode mudar a uma velocidade incrível. Daqui a umas semanas teremos aí as cerejeiras em flor e essa paisagem é nova. Nós é que estamos errados quando achamos que as paisagens são para sempre, como se fossem uma tela, mas as reais não.”

E foi de paisagens reais que viveu a palestra de Álvaro Domingues, como a que descreveu e comentou, em entrevista à RCB.

“Uma rotunda, próxima de Vila Franca de Xira, que diz em letras garrafais PURO RIBATEJO com um silhueta de um touro bravo, e ao lado está um grande outdoor escrito em chinês. Muito enganados andamos nós se os nossos referendos identitários forem os do passado, que já não existem, ou os da economia global, que nos dizem respeito obviamente, mas que nós ainda não sabemos o que é que significam.”

E porque a paisagem também conta a história de uma região, ou de um país, o que é que ela diz do interior?

“Eu costumo dizer que o contrário do interior não é o litoral, o contrário do interior é o exterior. As pessoas vão procurar vida onde seja, por isso digo que o adjectivo rural está problemático, porque se iniciarmos conversa com as pessoas elas dizem que agora vivem cá, mas tiveram vários anos no exterior, e os filhos? Um casou no Canadá outro está em Lisboa, e encontramos uma espécie de população flutuante.”

É dessa história que é feita hoje a paisagem, que já não é rural, nem desenhada pelos agricultores, é antes uma paisagem contraditória, a que hoje vemos no interior.

“Vemos construção nova ao lado de casas que estão quase em ruína, vemos actividades que a gente sabe que corresponderam a investimentos muito recentes, e vemos coisas que estão decadentes, vemos casas de veraneio, e ao lado uma ruína de séculos, é um espaço de alguma forma contraditório. Por isso as pessoas às vezes dizem coisas que não deviam dizer, como é feio ou é caótico, quando deviam dizer - não entendo!”

O geógrafo, que participou numa palestra sobre a paisagem, no âmbito do Projecto Entre Serras, Rota da Arte Contemporânea, Agricultura e Biodiversidade, que decorreu no auditório do museu municipal, falou também, à RCB, do seu próximo livro. Depois de “Volta a Portugal”, o também docente e investigador está a trabalhar num novo livro que já tem nome, chama-se “Entre nós”, neste caso, os nós das auto-estradas. 

“O efeito nó de auto-estrada de repente tornou o país pequeno, tornou coisas que estavam longe, perto e o estar próximo de um nó mudou tudo. Às vezes fazem-nos a pergunta: onde é que tu moras? E nós respondemos a três minutos do nó do Fundão, respondemos em tempo, como quem pergunta que horas são? E nós respondemos que faltam 500 metros para as cinco.”

“Entre Nós” deverá ser lançado, no final do ano ou início do próximo, ainda faltam, portanto, muitos quilómetros.

 

 


  Redes Sociais   Facebook

2007—2019 © Rádio Cova da Beira

Todos os direitos reservados