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Segunda, 19 Nov 2018
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CULTURA
"BASÁGUEDA" APRESENTADO EM CASTELO BRANCO
Rádio Cova da Beira
"BASÁGUEDA" é um livro da autoria de Anselmo Cunha e Victor Toscano. O lançamento da obra decorre este sábado, 7 de Julho, às 21:30H, na ex-Rua do Saco (jardim junto da liga dos combatentes), em Castelo Branco. A apresentação é feita pelo director do JN, Afonso Camões.
Por Paulo Pinheiro em 07 de Jul de 2018

Do Prefácio:

 

Contra a irrelevância

 

 A ribeira da Baságueda nasce na Malcata, corre para o meio dia e entrega as suas águas limpas ao Erges que as passa ao Tejo. Percorre um boa parte do território do concelho de Penamacor mais agrestes, interessantes e bonitas.

 

Baságueda foi o nome escolhido para um blogue criado numa noite de Primavera em 2005. Aí foram originalmente publicados os textos que compõem este livro.

 

Ainda que mal atamancada no começo, a rubrica “A Nossa Fala” – que posteriormente evoluiu, apropriadamente, para “A Nossa Faladura” – foi sendo alcofa dos textos que se dedicavam a desvendar alguns vocábulos que fazem parte do léxico não dicionarizado da gíria e do calão das gentes da raia central sul - e até mais além - com alguma facciosa primazia para o linguajar que os autores apreenderam na sua aldeia natal (Aldeia do Bispo, Penamacor).

 

À medida que tomávamos o gosto pela (re)descoberta da tamanha riqueza desta área da cultura rural, popular, portuguesa, que também é a nossa, e sendo ambos - Karraio e Changoto - a modos que azadinhos cabonde para as letras, avezámo-nos a tentear a memória em busca de palavras e expressões que faziam parte desses antigos linguajares populares, a maioria ainda em uso, pelo menos nestas terras da raia e do campo e que os dicionários não apanharam. Como a memória não encurrancha, dembanão já tinhamos uma catrefada delas e não foi difícil colocá-las a construir histórias onde entravam determinadas personagens em determinados contextos, quase sempre no ambiente da pequena comunidade da aldeia rural da raia. Na maioria, trocaram-se as personagens e as alcunhas para evitar engulhos; em muitas, enganou-se a verdade recriando os factos; noutras ainda, foi preciso recorrer a algumas mandingas.

 

Às vezes o lápis discorreu rente ao chão, outras, empinou-se até à erudição, desconstruindo e reconstruindo um mundo que subsistindo apenas na memória de quem o viveu, constitui elemento inapagável da nossa identidade colectiva. Neste “nosso” tempo de tendências uniformizadoras, é imperioso afirmar a “nossa” diferença, sob pena de passarmos a indiferenciados, identitária e culturalmente. Daí á irrelevância é um pequeno passo. O Baságueda funciona como repositório da nossa modesta contribuição nesse combate.

 

Neste livro, oferece-se uma selecção dos textos publicados ao longo dos primeiros dois anos do blogue, entre 2005 e 2006.

 

Ficamos atidos a que quem nos ler não seja nenhum taloubena e abrenja comédado o significado ou significados deste léxico no contexto em que é enquadrado.

 

 

 

Anselmo

 

 

 

 

 

O futuro do passado

 

 

 

A memória rejuvenesce-nos: ao evocarmos o nosso passado vivenciamos experiências, situações, pessoas…que, muitas vezes, elas próprias parece que não têm idade. Estão ali connosco e nós com elas. Reproduzimo-las e , sendo assim eternizamo-las. Neste sentido, quando agora reconheço um passado como meu é como se o passado fosse também futuro! Ou não é verdade que os nossos projectos são fundamentados naquilo que aprendemos? Se calhar é por isso que vivemos num tempo sem tempo. Atrevemo-nos a dizer “no meu tempo” como se ele fosse uma propriedade nossa. Nós é que somos prisioneiros dele. Só a memória nos liberta deixando-nos livres para dele fazermos o que queremos.

 

O Baságueda é isso mesmo: tem a humilde pretensão de não deixar morrer o que nos parece que está desaparecendo. Regista assim de forma indelével alguns momentos que passámos e que podem ser revividos pelos que nos substituem “neste vale de lágrimas.”

 

Se de algum modo o projecto foi alcançado, tanto melhor.

 

Seja como for só me cumpre dizer que continua a valer a pena ir, de vez em quando, ao passado.

 

Xi


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