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Quarta, 03 Mar 2021
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CULTURA
JOÃO MORGADO LANÇA MAIS UM LIVRO
Rádio Cova da Beira
Depois de no passado dia 11 de Setembro, no Castelo de Silves, ter lançado o livro de poesia “PORTO DE SAUDADE”, obra vencedora do Prémio Literário de Poesia Manuel Neto Dos Santos, João Morgado, escritor covilhanense, apresenta no dia 1 de Outubro, em Póvoa de Varzim, “O Céu do Mar”, Prémio Literário D. Luíz Rainha, Correntes d’Escritas 2015.
Por Paulo Pinheiro em 21 de Sep de 2016

"O Céu do Mar", é uma novela que relata o drama de 1892, em que uma tempestade levou ao naufrágio de dezenas e dezenas de barcos pesqueiros, colocando de luto toda a costa da Póvoa, Caxinas e Vila do Conde. Oportunidade para falar das famílias pobres que viviam da pesca e lidavam com a morte todos os dias. E dar uma resposta à pergunta:

- Para onde foram os corpos dos pescadores naufragados, que o mar nunca devolveu a terra para um funeral digno por parte dos familiares e amigos?

A obra é editada pela Fundação Luís Rainha com o apoio da câmara municipal da Póvoa de Varzim, e terá uma tiragem inicial de quatro mil exemplares Ainda este mês, João Morgado deve anunciar a edição nacional de duas novas obras dedicadas ao público juvenil.

Leia os excertos das duas obras:

PORTO DE SAUDADE

"...Deus queira que não sejam mãos alheias a colher a seiva das terras que desbravaste. Deus queira que não tragas só a guerra contigo, só as mãos calejadas, só a pele arranhada de espinhos, só as gengivas em sangue, só a pele em chagas…

 

Deus queira que no teu regresso, não encontres este meu corpo de mulher ultrajado, tomado por aqueles que se aproveitaram do teu sonho de glória, da tua partida, da tua ausência…

Deus queira que não encontres filhos que não são teus, mas que encontram alimento nos meus seios.

Andam os abutres no ar. Tenho medo. Regressa marinheiro, regressa! Rápido!...

Dá volta ao leme, faz marcha à ré, corrige a posição das velas, faz torna viagem e segue o que era o teu rastro de espuma. Volta aos meus braços, recolhe ao teu cais, vem lançar amarras no meu corpo, lançar a âncora no meu ventre.

Vem, de novo, plantar trigo no meu peito, cozer pão no meu fogo, fazer filhos do meu barro. Descobre a pimenta no meu sangue, a seda na minha pele, as pedras preciosas nos meus olhos. Coloniza os meus pensamentos selvagens e fala-me de Cristo quando pecar no meu desejo.

Eu sou a tua Pátria, o chão dos teus passos, a terra que tens de cultivar..."

O CÉU DO MAR

“Mãe, quero ir para o mar…», dizia ele de pele morena e jeito vivaço. «O mar ainda não cabe nos olhos de Deus, por isso deixa-te estar… envelhece». O catraio baixa os olhos com tristeza, mas ainda pergunta: «Com que idade o pai foi para o mar?». Carminda mostra-se inquieta e irritada. Não me lembra. «Mas sei a idade que tinha quando o mar foi para dentro dele e não o deixou regressar… não me peças para partir se não podes assegurar que voltas.» Pedro sentia-se imortal como todos os jovens, por isso garantia à mãe que voltaria, que voltaria sempre. Mas as viúvas são duras de ouvido, não ouvem o que lhes lembra a morte - por isso fez orelhas moucas às súplicas do filho. «O mar é traiçoeiro, não o quero dentro de ti». Pedro ainda argumenta como pode, mas ela não o ouve. As suas palavras eram como o rumorejar das ondas - vêm e vão, depois perdem-se na maré baixa. «Lembra-te, do mar não vem só peixe. Também chegam tábuas e mortos», diz ela, enquanto mexe a sopa de cação que está ao lume. «Do mar não vem só peixe, do mar não vem só peixe…» repete a mulher que tem uma cadeira vazia ao seu lado…”

 

 


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