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SOCIEDADE
SEMINÁRIO DO FUNDÃO: UM SÉCULO A MARCAR VIDAS
Rádio Cova da Beira
Paulo Fernandes não encontra instituição mais marcante no concelho - o seminário do Fundão - por onde passaram milhares de jovens durante os 100 anos de vida, os últimos três já sem vida… O centenário reuniu mais de uma centena de ex-seminaristas, um regresso ao local que, de uma forma ou de outra, lhes marcou o percurso, lhes toldou a personalidade ou lhes mudou a vida.
Por Paula Brito em 31 de May de 2016

O Seminário foi trazido para o Fundão pela diocese da Guarda, no início do século passado, para suprir a lacuna da educação dos jovens seminaristas criada após o encerramento do seminário da Mitra, no Vale do Mondego, que acabou confiscado após a implantação da República.

No Fundão, o seminário, que pelas circunstâncias do momento se chamava internato académico, começou por ser instalado na antiga casa da fábrica, doada por António Ribeiro Ferreira, transformada em hotel (Príncipe da Beira) já este século, agora também encerrado.

É essa primeira casa, "um casarão pobre, frio, com janelas rasgadas" que Virgílio Ferreira descreve no seu livro “Manhã Submersa”. Foi nessa casa que o pai de Vítor Feytor Pinto estudou integrando a primeira turma do seminário do Fundão “é curioso que o meu pai, quando fez 90 anos, com o cónego Mário Gonçalves, instituiu aqui uma bolsa de estudo para um jovem que durou até o seminário deixar de ter alunos”.

Vítor Feytor Pinto, acabou por também ele, com apenas 10 anos estudar no seminário do Fundão, já no actual edifício, construído para o efeito pela diocese da Guarda, numa quinta doada pela família Alves Monteiro, e inaugurado em 1934. Foi por vontade própria, queria ser padre, e foi ali que confirmou a vocação e adquiriu a formação que o acompanharia toda a vida “o meu pai tinha um colégio mas eu quis vir para o seminário, queria ser padre, e os seis anos que vivi aqui mudaram completamente a minha vida, tive acidentes, como toda a gente, venci as crises de estudo, venci as crises existenciais, e isso moldou completamente a minha vida.”

Vítor Feytor Pinto, que fez o elogio do seminário na cerimónia comemorativa dos 100 anos, recordou os tempos difíceis, em plena II Guerra Mundial, que viveu no seminário “comia-se muito mal mas ninguém se queixava, tudo o que nos davam era óptimo, fossem as papas de milho, o feijão pequeno, o chícharo, tudo era óptimo, porque o importante era estar aqui a aprender, a sentir dificuldades, foi muito importante para mim esta casa”.

Mas se a formação era boa, a alimentação deixava muito a desejar, não só na década de 40 mas também na década de 60, quando Lourenço Marques frequentava o seminário, e no ano de 1968, recorda, fizeram um levantamento no refeitório “fizemos um levantamento devido à alimentação que não nos agradava, os feijões tinham gorgulho que comíamos ao almoço e ao jantar”. Estávamos em 1968 e o seminário não foi alheio às convulsões da época “há uma certa convulsão cá dentro, relativamente a uma casa que mantinha uma certa dificuldade em se adaptar aos tempos que iam mudando”.

O conhecido médico fundanense, que estudou no seminário entre 1963 e 1968, reconhece que esta era a única possibilidade dos mais pobres terem uma formação que considera foi “intensa” e “rigorosa”, e que, de outra forma, “provavelmente não teria”.

Já Fernando Chorão foi para o seminário do Fundão, vindo do Sabugal, convencido que queria ser padre, o que não se veio a confirmar, mas a formação que ali adquiriu durante cinco anos foi essencial no seu percurso de vida “aquilo que aprendi aqui quer em termos das valências que eram leccionadas, que eram equivalentes às matérias de outras escolas e mais algumas, como o latim, penso que adquiri aqui uma formação académica sólida que me permitiu continuar a minha formação universitária e além disso, houve valores que adquiri aqui e que permanecem pela minha vida”.

De quando em vez regressa para o convívio anual de antigos alunos, com alegria, pelo reencontro, e com nostalgia, pelo bulício de outros tempos ter dado lugar ao silêncio das salas vazias “é pena, acho que um espaço destes merecia ter mais vida humana, é a lei natural das coisas, mas como foi referido na assembleia geral dos antigos alunos, o seminário enquanto edifício está fechado mas enquanto peça fundamental de uma diocese tem que continuar vivo”.

Dimensionado para um tempo que já passou, o seminário do Fundão procura adaptar-se a um tempo novo. 


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