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segunda, 26 set 2022
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SOCIEDADE
AS VÁRIAS FACES DA EMIGRAÇÃO
Rádio Cova da Beira
Desde 2008 que Portugal perdeu para outros países cerca de 450 mil habitantes, “um ciclo infernal” chamou-lhe Manuel Vaz Dias no colóquio sobre a Emigração que decorreu durante dois dias na Moagem. Da reflexão fica a ideia, partilhada por todos, de que o fenómeno está pouco explorado em Portugal, nomeadamente a sua implicação na economia, na paisagem e na cultura.
Por Paula Brito Batista em 24 de Apr de 2015
 

“O lugar da emigração no imaginário do país é ínfimo se tivermos em consideração a dimensão do fenómeno. A ideia do emigrante conotado com pobreza leva a nação a ignorar esta faceta que valoriza o país e que deveria ser reconhecida e não esquecida”, frisou Ricardo Carvalheiro, docente da Universidade da Beira Interior.

Mas a emigração não é apenas um fenómeno do passado, é também um fenómeno do presente. Estima-se que em 2013 tenham emigrado 128.108 portugueses. Os destinos continuam a ser maioritariamente os países europeus com o Reino Unido no topo (30.121), seguido de Suíça (20.039) e França (18.000) “é um ciclo infernal, é uma nora que roda sem fim. Um país que não sabe guardar os seus filhos, os seus talentos, é um país que se mutila, que se empobrece e que compromete as suas oportunidades de desenvolvimento e de progresso”, lamentou Manuel Vaz Dias, presidente do comité nacional francês em homenagem a Aristides Sousa Mendes.

Na primeira pessoa, ficou o testemunho de Abílio Laceiras, emigrante, militante associativo em Paris, que deixa cair por terra a ideia de que os portugueses estão bem integrados em França “se estamos integrados porque é que num perímetro de 20 quilómetros na região de Paris há festas portuguesas que são feitas por portugueses e para portugueses, sem os outros, eu chamo isso um gueto, e quando eu digo que a nossa comunidade é muito boazinha é como a outra, somos é mais brandos e passamos mais despercebidos, mas se nos debruçarmos sobre a população prisional vemos que hoje temos quase cinco mil portugueses a cumprir penas em França”.

O problema da identidade do emigrante foi resumido, numa frase, pela escritora Antonieta Garcia “a identidade é um estar entre: é português em França, é francês quando chega a Portugal”.

Numa altura em que se comemora Abril, Fernando Paulouro recordou a forma “perversa” e “contraditória” como eram encaradas, na década de 60, as remessas dos emigrantes “nós tínhamos a sensação nítida que elas foram fundamentais para a manutenção do regime a que os próprios emigrantes escaparam, e isso reproduz-se hoje, porque aqueles que o Primeiro-ministro mandou emigrar enviarão muitos deles remessas para Portugal”.

França continua a ser o maior emissor de verbas de emigrantes para o país. Segundo o Banco de Portugal, em Janeiro de 2014 foram de 68,6 milhões de euros, e em Janeiro deste ano ultrapassaram os 79,6 milhões. Ainda segundo os dados apresentados neste debate pelo sociólogo Jorge Branco, nas últimas autárquicas, em França, foram eleitos, só na região de Paris, mais de 500 autarcas portugueses ou de origem portuguesa, entre eles, Hermano Sanches, eleito na Câmara de Paris, que deixou uma ideia para o futuro “se Portugal tem no seu ADN a emigração deve continuar a ir para fora, para participar como cidadão do mundo e para tirar proveito para Portugal através da inovação”.


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