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Sexta, 22 Nov 2019
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CULTURA
CLASSIFICAR A DANÇA DA TRANCA
Rádio Cova da Beira
Tentar que a dança da tranca seja classificada a nível nacional como património imaterial é o desafio lançado pelo presidente da câmara municipal do Fundão ao rancho folclórico de Silvares. Um repto deixado na comemoração do 19º aniversário da elevação daquela freguesia a vila.

Notícia com som
Por Paulo Pinheiro em 26 de Jun de 2014

 Um artigo sobre a Dança da Tranca foi encontrada na casa de Ilda Valentim, a grande impulsionadora do rancho silvarense, que publicamos, com os agradecimentos aos actuais responsáveis do Rancho Folclórico de Silvares.

 

 

 

 

A dança da Tranca 

 

 

 

Há, na Beira Baixa, pelo menos nos concelhos de Fundão – Silvares e da Covilhã, uma dança típica muito curiosa – a Dança da Tranca.

 

O nome desta dança advém da presença de uma tranca posta no chão, por cima e de cada lado da dita tranca homem e mulher, executam uma coreografia no género do conhecido Fandango do Ribatejo.

 

Na dança da tranca cada um dos “dançadores”, ao aproximar-se desta e em frente das suas extremidades, faz uns ligeiros movimentos de bailado à maneira de uma reverência cerimonial de iniciação, para logo se aproximar e em seguida executar uma coreografia por cima e de cada lado da dita tranca sem, porém, como é preceito, lhe tocar, o que o outro parceiro repete e sendo mulher segurará a saia exterior por altura dos joelhos para a sacudir rapidamente ao ritmo de música viva, que serve de suporte à dança, não cantada. A dança termina com o abandono simultâneo dos “dançadores”, que se juntam para saírem a bailar. É uma coreografia simples, limitada, ao movimento, de ritmo apressado, dos pés enquanto o corpo se conserva erecto. Embora presença da mulher possa indicar que se trata de uma dança de galantaria, a cortesia não está ali patente nem se vislumbra. 

 

O elemento feminino não passará, a nosso ver, de um acrescento para dar mais carácter à dança ou enriquecê-la. Temos que seria lançada primitivamente por um só homem e, depois, por dois, em função ritual, para, perdido o seu simbolismo, se conservar numa dança espectacular de competição, como é, hoje considerado o fandango do Ribatejo, em que a mulher será, no ânimo dos dançarinos, alvo de conquista através das habilidades de cada um com os trejeitos dos pés.

 

 Mas para quê a presença ali da tranca? – Que função ou papel é o seu? O problema é, segundo o nosso modo de ver, de fácil decifração: a tranca nada mais é, nada mais representa do que um substituto de uma espada, objecto de culto da sua arma de combate em vésperas ou em resultado benéfico deste!

 

 Danças deste tipo encontram-se ainda, pelo menos, na Escócia, e deve ter sido trazia como tantas outras para a Península pelos Romanos. Com o andar dos tempos essa dança, que se vem transmitindo de geração em geração viu a espada primitiva substituída, primeiro, por uma vara, depois, por uma tranca caseira, sempre pronta atrás da porta de casa próxima.

 

A primitiva devia estar espetada no chão e ao alto e quando passou a vara a substitui-la esta tomaria a posição que hoje pertence à tranca e, no primeiro caso, seria um só dançadora prestar-lhe culto. 

 

Outro problema se põe em equação: - não será a dança da Tranca a origem do Fandango Ribatejano, dado o paralelismo das duas coreografias? – a posição dos dançadores do fandango, dois homens que se afrontam inicialmente, como que a medir-se, depois se aproximam e dançam a mesma coreografia da dança da Tranca, com movimentos dos pés semelhantes, iguais atitudes e aprumo dos dançadores, não nos impõem a convicção que, se o Fandango não é filho da dança da Tranca, como cremos, derivou do mesmo tronco comum? 

 

O que essas danças, a da Tranca e o Fandango, não são, positivamente, é lúdicas ou de divertimento como as de raiz nacional, que exigem sempre um conjunto de pares – homens e mulheres – em economia comunitária. Uma e outra, com efeito, excluem a possibilidade de baile, o baile campestre da nossa gente rural!

 

 O que ficou escrito constitui matéria de uma comunicação apresentada ao III Colóquio Portuense de Arqueologia em 1964 e havia de acontecer que no mês de Agosto de 1966 vimos dançar em plena Avenida da Liberdade em Lisboa por casal de componentes um grupo folclórico escocês integrado numa daquelas Marchas de Lisboa, com a particularidade de a Tranca ser substituída por uma autêntica espada. Dai supor-se, não sem legitimidade, que tal dança podia ou devia ser de origem celta em não romana. 

 

 

Artigo – Danças Populares Portuguesas. “ A Dança da Tranca (Beira-Baixa)


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