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CULTURA
ANA MOURA EM CASTELO BRANCO
Rádio Cova da Beira
O cine teatro Avenida, em Castelo Branco, recebe no próximo dia 18 de Janeiro, pelas 21:30H, a fadista Ana Moura. A cantora apresenta o quinto álbum "Desfado".
Por Paulo Pinheiro em 28 de Dec de 2012

Não há negação. Desfado é o corolário de um caminho próprio em que o fado, nunca sendo convidado a emigrar, se consegue libertar das suas mais apertadas grilhetas. E esta libertação faz-se no momento certo. Era chegada a altura de Ana Moura ousar e, se o não tivesse feito agora, com Desfado, era a partir deste momento que se lhe abria uma linha de crédito para o arrependimento futuro. Depois de ter seduzido Rolling Stones, Prince e Caetano Veloso, desta vez foi Herbie Hancock quem não escapou ao seu canto magnético, registando o seu famoso piano eléctrico que ajudou a revolucionar o jazz ao lado de Miles Davis e Wayne Shorter num tema inédito assinado pela própria Ana Moura, “Dream of Fire”. Nome histórico do jazz, Hancock venceu em 2008 o Grammy para Melhor Álbum do Ano, a segunda vez na história (43 anos depois de Stan Getz e João Gilberto) que o jazz venceu na categoria principal. O álbum em questão, uma homenagem a Joni Mitchell intitulada River: The Joni Letters tinha como produtor Larry Klein, o mesmo homem que Ana Moura ganhou o direito de ter como produtor graças à sua extraordinária carreira internacional.

Ex-marido e ex-parceiro musical de Joni Mitchell, Larry Klein distingue-se pelo tratamento especialmente capaz que tem imprimido a um conjunto iluminado de vozes femininas: Tracy Chapman, Melody Gardot, Madeleine Peyroux, Holly Cole e, obviamente e antes de todas as outras, Joni Mitchell).

Em Desfado, Ana Moura quer cantar a sua geração. Daí que tenha pedido originais a muitos dos mais notáveis escritores de canções (aplicar sublinhado a “canções”) aparecidos na última década – Pedro da Silva Martins (Deolinda), Nuno Figueiredo e Jorge Benvinda (Virgem Suta), Márcia Santos (autora do primeiro single, “Até ao Verão”), Luísa Sobral, António Zambujo e Miguel Araújo Jorge (Os Azeitonas). E Manel Cruz (Ornatos Violeta, Supernada), isolado apenas porque o seu reconhecido talento nas canções ultrapassa os últimos dez anos.

Nunca de forma tão deliberada quanto em Desfado há um encontro de Ana Moura com os “seus” autores: ao esforço de escreverem para o mundo da cantora acresce que esse mesmo mundo está em clara expansão. E é hoje de uma riqueza estilística e de registos única na música portuguesa. É também isso que se celebra neste espantoso disco de desfados.

Não há separação. O percurso de Ana Moura pedia um disco com este risco, com este arrojo de querer eliminar cada vez mais as zonas tampão entre o fado e a restante música popular. Um dos grandes feitos de Desfado reside precisamente na forma desimpedida com que a sua voz circula livremente por entre fados tradicionais com letras que levam a assinatura de gente que tão bem lhe conhece as entranhas, como Aldina Duarte, Manuela de Freitas, Mário Rainho ou Nuno Miguel Guedes, logo seguidos de criações de Tozé Brito, Pedro Abrunhosa ou David Poe (compositor norte-americano de música para cinema).

Quanto a instrumentistas, o elenco seleccionado por Ana Moura e Larry Klein reúne uma verdadeira galeria de notáveis: além da presença portuguesa assegurada por Ângelo Freita na guitarra portuguesa e Pedro Soares na viola de fado, destacam-se as presenças do contrabaixista David Piltch (Bob Dylan, John Legend), do guitarrista Dean Parks (Marvin Gaye, Michael Jackson, Madonna), do percussionista Jay Bellerose (Aimee Mann, Suzanne Vega), do teclista Patrick Warren (Fiona Apple, Bruce Springsteen), do violinista Freddy Koella (Lhasa de Sela, Carla Bruni) e do saxofonista Tim Ries, velho conhecido de Ana Moura, músico de palco dos Rolling Stones e responsável pelo Rolling Stones Project que lhe deu a cantar “No Expectations” e “Brown Sugar”.

Tudo é parte do mesmo, desta brilhante e generosa obra de coragem e de afirmação. Inclusivamente quando, entre um tema e outro, de repente emerge ‘A Case of You’, uma das mais gloriosas criações de Joni Mitchell (que muitos conheceram mais recentemente pela releitura de James Blake). Não se pode ir cantar para o mundo e fingir que o mundo não regressa connosco.

Não há cessação. Por mais ou menos que se queira, Ana Moura será e soará sempre a fadista. E isso, se sempre foi uma bênção, não será desta vez também uma limitação.

O preço do espectáculo é 15 euros.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FONTE: CULTURA VIBRA


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